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Media & Jornalismo nº 6 - Investigação e Globalização

Este sexto número da Media e Jornalismo destaca caminhos da pesquisa em comunicação, evidenciando, na diversidade dos temas em análise nos artigos que o compõem, como é vasta a agenda de estudo de fenómenos comunicacionais de dimensão social.
As primeiras páginas são dedicadas ao investigador finlandês Pertti Alasuutari, uma das referências internacionais na pesquisa qualitativa sobre os media, (e) que tem dado grande atenção às metodologias que a sustentam, em particular de tipo etnográfico.
Em entrevista à Media e Jornalismo, destaca a necessidade de atenção a fenómenos culturais na sua expressão quase invisível na vida quotidiana, a exigir distanciamento face ao que parece natural, defendendo formas de pesquisa que valorizem os modos de percepção e como estes afectam a realidade, e uma atenção constante aos cenários sociais e comunicacionais que se vão transformando e que tornam obsoletos conceitos adquiridos.
Um dos cenários que Alasuutari explora no artigo que se segue é o da globalização da pesquisa qualitativa, os seus problemas e desafios. Este editor do European Journal of Cultural Studies analisa o domínio anglo-americano no mercado editorial e como afecta a definição de conteúdos e questões de pesquisa, ao mesmo tempo que permite, pelo uso comum de uma língua, o acesso a estudos e o seu debate, que de outro modo ficariam limitadas às línguas dos respectivos países. O autor destaca ainda uma outra globalização, a do fluxo de ideias que atravessa disciplinas, cruzando as humanidades e as ciências sociais.
Os artigos que se seguem ilustram este desafio, convocando diferentes quadros disciplinares e reflectindo sobre diferentes territórios e actores sociais.
Sem deixar de reconhecer a desigualdade no acesso social aos media, Lídia Marôpo aprecia como movimentos sociais de defesa dos direitos da criança e do adolescente no Brasil têm conseguido um espaço crescente nos media noticiosos do país e destaca o percurso desses movimentos no sentido da afirmação pública da causa da infância e sua legitimidade social. O olhar sociológico combina aqui a atenção a movimentos sociais e aos fenómenos do agendamento mediático.
O artigo sobre a introdução do euro no espaço da União Europeia, de Maria João Silveirinha, mostra como esse acontecimento, de ordem primordialmente económica, convoca outras dimensões da integração europeia. Caracterizando a dimensão simbólica do dinheiro na construção de identidades de pertença, a autora apresenta os primeiros resultados de uma análise sobre os modos como a imprensa portuguesa (Público e Diário de Notícias) cobriu o período inicial da circulação da nova moeda.
Rogério Santos faz uma incursão pela história do jornalismo em Portugal, recuando aos finais do século XIX, num tempo em que, ainda, o espírito partidário e as influências da literatura eram estruturantes da profissão. Com base numa pesquisa documental sustentada em textos de memórias de jornalistas, a maior parte produzidos no início do século XX, o autor convoca assim o contributo das humanidades para pensar também a sociologia da profissão e a sua genealogia. Prossegue-se a atenção às marcas históricas da afirmação do jornalismo enquanto profissão, como o fizera Jean Chalaby no espaço anglo-americano e francês (vide Media e Jornalismo nº 3).
O artigo de Catarina Burnay parte do panorama audiovisual nos últimos anos na área da ficção nacional, quando telenovelas portuguesas conseguiram índices de audiência superiores aos de telenovelas brasileiras, para questionar relações entre estes dados estatísticos e as imagens negativas das telenovelas no discurso dominante sobre televisão. Traça indicadores dos contextos de produção, nomeadamente de ordem económica, e de recepção deste género televisivo, em particular de ordem cultural.
A extensa recensão temática sobre coberturas jornalísticas de eleições, de Estrela Serrano, reúne contributos de autores norte-americanos e britânicos mas também de investigadores brasileiros e italianos, compilados a partir de livros e de artigos científicos publicados em revistas de Sociologia, Comunicação e Ciência Política.
Cruzando também tempos, territórios e autores de diferentes latitudes, as restantes recensões publicadas neste número constituem outros contributos para um olhar atento e crítico sobre os caminhos da pesquisa em media e jornalismo.

A direcção


Sumário
Tema de abertura – Caminhos da Pesquisa

Entrevista a Perti Alasuutari – O conceito clássico de media está a tornar-se obsoleto
Entrevista de Anabela de Sousa Lopes e Carla Baptista

Pertti Alasutari – A globalização da pesquisa qualitativa


Artigos
Lídia Maropo – Movimentos sociais e construção do discurso mediático da infância no Brasil

Maria João Silveirinha – O euro e a construção europeia. Representações na imprensa portuguesa

Rogério Santos – Jornalismo português em finais do século XIX

Catarina Burnay – Telenovela e público: uma relação escondida


Recensões
Recensão temática: Padrões jornalísticos na cobertura de eleições, por Estrela Serrano
Jenny Kitzinger, Framing abuse, por Cristina Ponte
Patrício Tupper. Allende, la cible dês medias et de la CIA (1970-1973), por Susana Salgado
Cristina Ponte.
Leituras das Notícias, por Carla Baptista
João Paulo Faustino.A Imprensa em Portugal, por Estrela Serrano

 

Artigos
A globalização da pesquisa qualitativa, Pertti Alasutari
         

Jornalismo português em finais do século XIX, Rogério Santos

Movimentos sociais e construção do discurso mediático da infância no Brasil, Lídia Maropo

O euro e a construção europeia. Representações na imprensa portuguesa, Maria João Silveirinha

Telenovela e público: uma relação escondida, Catarina Burnay

© Centro de Investigação Media e Jornalismo, 2000-2006 | última actualização: 23.11.2003